Mamãe vai trabalhar. E agora?

Você passa meses cuidando do bebê. Sua rotina  gira em torno das  fraldas, muitas fraldas, leite (do peito ou fórmula), banhos, brincadeiras, muita louça e roupinhas pra lavar, chupetas para esterilizar, músicas da Galinha Pintadinha e da Palavra Cantada (se você tiver sorte), choros, manhas, risadas encantadoras, sonecas fora de hora (se você também tiver sorte).

Mas, chega aquele momento em que você tem que voltar ao trabalho.
Sua cabeça e seu coração se dividem entre a alegria em regressar ao mundo adulto do qual sempre fez parte até antes do bebê nascer, a tristeza e o medo em deixar o seu filho (a) sem os seus cuidados, por mais que existam avós amorosas para ajudar ou uma boa escolinha para ficar com o bebê enquanto você vai para a labuta.

E nesse momento, que pode acontecer quatro ou seis meses depois do nascimento da criança surge a dúvida (sua e também colocada por parte da família): voltar ao trabalho ou largar tudo e ser mãe em tempo integral?

Em primeiro lugar é preciso fazer uma pergunta esquecida pela grande maioria dos "filósofos da criação de filhos" ou dos médicos que defendem a amamentação exclusiva até os seis meses, não importando quanto isso seja desgastante para a mãe ou para o bebê: Essa mãe PRECISA voltar ao trabalho?
Sua contribuição financeira é vital para a manutenção da estrutura familiar?
Se a resposta é sim, não há o que discutir. Muitas pessoas se esquecem que hoje manter uma casa, uma família custa dinheiro e são poucas as famílias que conseguem ter uma vida digna  ou confortável com apenas uma pessoa trabalhando.

Muitos vão dizer: então porque tiveram filhos? E isso daria um outro post com argumentos sobre religião, sonhos, desejos e tudo o que envolve a vinda de uma criança ao mundo. Então, vou deixar essa discussão para uma outra oportunidade.

Se a renda que a mãe ganha é imprescindível para a família a volta ao trabalho não é opcional é uma necessidade e resta a todos os envolvidos, pais, avós e a própria empresa para a qual essa mulher trabalha olharem com respeito e carinho essa nova situação que vai fatalmente trazer conflitos emocionais e práticos para a mãe.

Uma segunda situação é quando a contribuição da mulher não é vital para o orçamento familiar e aí, uma outra pergunta deve ser feita: Essa mulher, agora mãe, quer voltar ao trabalho?

Muitas pessoas acham que a partir do momento que uma mulher se torna mãe ela deve, se for possível, abandonar totalmente seus outros interesses. Anos de estudo, de esforço, de dedicação a uma profissão devem ser deixados de lado para que a mulher possa se dedicar exclusivamente à criança.

Recentemente ouvi em um programa de rádio da Baixada Santista, local onde moro, que o grande problema da violência que atualmente assola a nossa sociedade foi criado quando a mulher decidiu trabalhar e deixou de se dedicar aos filhos.

No momento  em que ouvi esse absurdo sem tamanho meus dedos coçaram e  tive uma imensa vontade de ligar para a tal rádio e dizer umas boas verdades aos apresentadores, todos homens, que estavam no ar, mas me contive.

A saída da mulher para o mercado de trabalho propiciou  a milhões de pessoas progresso, crescimento, acesso à educação, à saúde, à uma vida mais digna.

Tirou mulheres da situação de inteira submissão e de violência que muitas viviam junto com seus filhos.

Uma vez já escrevi  falando sobre feminismo que o trabalho fora de casa fez com que mulheres que eram espancadas, ofendidas e humilhas pudessem se separar, recomeçar.
Disse e repito: passamos fome, mas não nossos filhos e por eles muitas de nós aguentam situações insustentáveis.

O grande problema é que a mulher evoluiu, o mercado de trabalho precisa da nossa mão de obra, mas a sociedade, os homens e as empresas não acompanharam essas evoluções. Não saíram de sua zona de conforto.

Hoje espera-se que a mulher trabalhe fora de casa, busque os filhos na escola, faça supermercado, faça o jantar, lave a louça, seja presente para os filhos e ainda esteja cheirosa e bem disposta para o marido.

Isso é irreal e impossível. E qual é a solução?
A volta pra casa?
Aí voltamos à segunda pergunta: Essa mulher, agora mãe, quer voltar a trabalhar?

Eu trabalho desde os dezoito anos. Desde então nunca mais me acostumei a pedir dinheiro para ninguém, tampouco a prestar contas dos meus gastos.
Sempre quis ser independente e trabalhar como jornalista, profissão que sempre amei.
Durante anos tentei atuar na área e quando finalmente consegui me senti extremamente realizada.

Nunca pensei em largar a profissão. Nunca pensei em diminuir o ritmo. Sempre acreditei que a única forma de uma mulher ser totalmente realizada era trabalhando com aquilo que amava, tendo sua independência, seu espaço no mercado de trabalho.

Nunca pensei em mudar de ideia. Até Miguel entrar na minha vida.

Quando fiquei grávida eu trabalhava em uma emissora local de televisão. Durante a gravidez passei a ter sérios problemas dentro da empresa e decidi, antes mesmo do bebê nascer que não continuaria lá depois do término da licença, mas minha intenção não era parar.

Quando o  Miguel estava com quatro meses passei a fazer contatos com algumas pessoas que eu conhecia e cheguei a ir a duas entrevistas de emprego, já no final da licença.

Um amigo meu que era coordenador de uma universidade me convidou para dar aula em dois cursos ligados à área de comunicação e eu aceitei de cara, uma vez que sempre gostei de lecionar e queria ter essa experiência no Ensino Superior.

As aulas eram de noite, duas vezes por semana e então eu e o Diego, meu marido, conversamos e resolvemos que eu só voltaria a procurar emprego no jornalismo diário no final do ano, quando o Miguel estivesse maior.

A nossa rotina teve poucas alterações: eu ficava com o Miguel durante o dia, saía eventualmente para atender algum cliente de assessoria de imprensa, outra atividade que há anos exerço, mas como tenho uma sócia acabava ficando muito tempo com o meu filho.

A parte da manhã era toda dedicada ao Miguel: acordávamos juntos, no ritmo dele que sempre foi dorminhoco; passeávamos, voltávamos pra casa, eu dava o almoço, banho e enquanto ele dormia de tarde preparava as aulas com ele do meu lado, na cama e  com o notebook no colo. Essa rotina deliciosa durou até ele completar um ano e  dois meses, mas durante todo esse tempo, mesmo trabalhando eu sentia falta da agitação do jornalismo diário, na minha cabeça eu ainda era aquela repórter workaholic de antes.

Então, em abril de 2013 recebi um convite para voltar à reportagem, dessa vez em uma rádio. Um veículo novo, que eu sempre tive vontade de trabalhar. Aceitei sem pestanejar, feliz da vida.
O Diego ainda perguntou se eu não queria esperar mais, mas eu disse que não.
O horário era um pouco puxado: das sete da manhã às três da tarde e o estúdio, a princípio era longe, em Cubatão, o que me fazia acordar às 5h30min.

Como comecei no novo emprego do dia para a noite, literalmente,  não houve tempo para adaptação. Minha sogra  ( e aqui devo dizer que a minha sogra é um sonho de sogra) se prontificou a ficar com o bebê enquanto eu estivesse trabalhando; como eu saía muito cedo de casa o Diego o levava para a casa dela e eu buscava quando saía do trabalho.

A expectativa em voltar à minha rotina louca de jornalista era tanta que até o momento de entrar no carro e dirigir para o estúdio pela primeira vez a ficha não tinha caído: eu não iria mais acordar todo dia com o meu Miguel. Não iria dar seu "tetê" da manhã, não iríamos passear pelo bairro, descobrir cachorros novos na vizinhança, pegar folhas e flores do chão, dormir juntos a soneca da tarde...

Fui chorando o caminho todo. Chorei durante uma semana.
Não fui só eu quem  sentiu  a mudança. Meu filho também.
Ele passou a me ignorar no começo, depois a fazer birra, manha, chegou a me bater por duas vezes...
Toda manhã ele perguntava de mim para o pai até que um certo dia  ele não perguntou mais... quando o Diego me contou, chorei novamente.
Meu coração doía, mas profissionalmente eu estava realizada; adorava o jornal que ajudava a fazer, as pessoas que trabalhavam comigo eram ótimas e eu me apaixonei pela magia do rádio.

Mesmo assim não tinha aquela tranquilidade de antes. Dormia mal, comia mal e trabalhava muito. Como a equipe era pequena nós acabávamos levando muito trabalho para casa e eu não conseguia me dedicar exclusivamente ao Miguel quando estava com ele, sempre tinha que parar para atender uma ligação ou para resolver alguma pendência.
Nada demais para a Paula de antes, mas eu não era mais a mesma, só não sabia disso ainda.

Quando eu estava há oito meses no novo emprego uma amiga minha perguntou se podia me indicar para a vaga dela, em outra rádio. Ela era correspondente da Baixada Santista  e trabalhava sem horário fixo, já que a rádio não tinha redação no litoral. As matérias eram feitas na rua e da casa dela.
Como sempre acompanhei sua rotina via que ela conseguia conciliar a profissão e tinha tempo para fazer mais coisas com o filho dela, alguns meses mais velho que o Miguel.

Fui para a entrevista em São Paulo sem grandes expectativas, mas dois dias depois recebi um telefonema de um dos meus entrevistadores: se eu quisesse a vaga era minha.

Fiquei surpresa, lisonjeada  e extremamente dividida: adorava o lugar no qual trabalhava, tinha liberdade para fazer matérias, entrevistas e quase tudo que eu quisesse, o sonho de toda jornalista. Mas não acordava com o meu neném.

A vaga era na empresa de comunicação que eu sempre quis trabalhar, mas não foi isso que me fez decidir pela mudança: em uma das muitas conversas que tive com o Diego ele me falou uma frase mágica: "Você vai voltar a acordar com o Miguel". Então, na mesma hora tomei a minha decisão.

Hoje, cinco meses depois tenho certeza que tomei a decisão mais acertada e não estou falando do ponto de vista profissional, não. A visibilidade e a satisfação que vieram foram ganhos extras. A maior conquista foi voltar a acordar com o meu bebê, poder levá-lo para passear comigo mais vezes na semana, estar presente em muitos momentos apesar da correria que enfrento todos os dias.

Eu sempre fui jornalista, hoje sou uma mãe-jornalista.
Consegui continuar exercendo a profissão que me realiza e diminuir o ritmo, ficar mais tempo com o meu menino.

Tenho certeza que mesmo se essa oportunidade não tivesse aparecido eu teria optado por uma mudança profissional, talvez voltando a apenas lecionar. Nunca pensei em parar totalmente porque acredito que seja importante para mim e  para muitas mulheres trabalhar com o que se gosta, manter a independência financeira por mais que tenhamos um companheiro que nos dá a opção de parar, se quisermos.

Eu tive a grande sorte de poder optar e de ter pessoas como a minha sogra e a minha mãe para me ajudar; como o Diego que apoiou todas as minhas decisões.

Se antes eu achava um absurdo uma mulher parar de trabalhar para se dedicar totalmente à casa e aos filhos, agora consigo entender completamente.
E se puder dar um conselho vou ser intrometida e dar apenas um: se você sente falta do seu filho e pode diminuir o ritmo, diminua. Fique mais tempo com ele, mesmo que tenha que ir menos ao salão, comprar menos roupas ou sapatos. E afaste a culpa, seja qual for a sua realidade.

Hoje meus dias são mais corridos, atarefados e eu preciso fazer uma força incrível para organizar a minha agenda, mas olha só: eu acordo com o Miguel todos os dias e isso não tem preço ou reconhecimento no mundo que pague.

E sabe o que eu falei lá em cima sobre trabalhar ou ser mãe em tempo integral? Pois é, esquece. Mãe é mãe sempre, em tempo super integral.









Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Puerpério, uma estrada para dois

Quando eles soltam a nossa mão