Quando eles soltam a nossa mão
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Uma vez ouvi em uma de minhas séries favoritas de TV, "Grey's Anatomy" uma de minhas personagens, também favoritas, a Dra. Bailey reclamar emocionada que o filho pela primeira vez havia soltado sua mão para entrar na escola, ao que o outro personagem respondeu: " Você sabe o que acontece quando ele larga a sua mão? Você a recupera e pode fazer melhor outras coisas importantes, agora que tem as duas novamente".
Essa frase nunca saiu da minha cabeça, principalmente depois que eu tive o Miguel.
No dia 4 de agosto ele foi para a escola pela primeira vez, com 2 anos, 4 meses e 22 dias de idade.
No primeiro dia ele entrou com a mochila nova, o uniforme e alegre, nem olhou pra trás.
Escolhemos um colégio perto de casa, com boas referências dadas por amigas muito próximas. Fomos visitá-lo, junto com o Miguel três vezes antes dele começar a frequentá-lo. Eu não queria uma escola grande e também não queria nenhuma com vertente religiosa definida, uma vez que estudei em um colégio católico e, pelo menos para mim, a experiência não foi boa.
Então optamos pelo "Pixote". Antes mesmo de começar o Miguel já falava "Eu vou 'pá' minha 'escoinha', 'pa ' Pixote".
Ficamos animados com a aceitação dele. Na primeira semana fizemos a adaptação: eu o levava às 14 horas e o buscava às 16h. No primeiro dia quando fui pegá-lo ele estava aos prantos no colo da coordenadora.
Meu coração ficou partido.
No segundo dia ele não quis ir, mas levamos mesmo assim e foi aquele desespero, aquela choradeira e mais uma vez meu coração ficou em pedaços.
Eu, mais do que ele passei a ficar nervosa nos horários em que tinha de levá-lo e queria buscá-lo o mais rápido possível.
Meu marido Diego foi comigo todos dias. Achamos importante que ele fizesse parte de todas as primeiras experiências do nosso menino e que o Miguel soubesse que poderia contar com os dois.
Na segunda semana eu tive que cobrir o desastre aéreo que vitimou o candidato à Presidência da República Eduardo Campos e mais seis pessoas. A tragédia aconteceu em Santos, minha cidade.
Era impossível levar o Miguel à escola e na quarta-feira do acidente eu pedi para que a minha sogra fosse até em casa ficar com ele e que o Diego o levasse.
Eu estava na rua quando liguei para casa e soube que o Miguel não havia comido, que chorava desesperadamente e que estava com ânsia de vômito. Tudo isso causado pelo nervoso de ter que ir para o colégio sem mim. Decidimos então não levá-lo até a cobertura do acidente, que durou quatro dias, acabar.
Na segunda-feira, dia 18 de agosto eu fui levá-lo sozinha e mais uma vez ele chorou desesperadamente. Saí de lá decidia a tirá-lo. Quando resolvemos colocar o Miguel para estudar por meio período pensamos em primeiro lugar que seria bom para ele conviver com outras crianças. Por enquanto ele é filho único, não tem primos da mesma idade e vive muito com adultos. Também me lembrei da minha própria experiência tardia: quando fui pela primeira vez para o colégio chorei muito e minha mãe me tirou. Depois só retornei quando iria completar 6 anos, no antigo Pré. Perdi todas as experiências do Jardim da Infância, não fiz aquelas atividades básicas que estimulam a coordenação motora. Até hoje minha letra é horrível, quando pequena e depois, na adolescência minha coordenação era ruim e apesar de ter aprendido a ler e escrever muito cedo e de tirar ótimas notas na escola, tudo o que dependesse da coordenação fina e da orientação espacial foi afetado. Desenho geométrico para mim era uma tortura! Também tive grande dificuldade em interagir com crianças da mesma idade, ou queria brincar com alguém mais velho ou com crianças bem mais novas. Já as minhas irmãs que fizeram educação infantil não tiveram esses problemas.
Pensei em fazer o melhor para o Miguel, mas comecei a achar que havia me enganado. Demos um prazo: se até o final do mês ele não parasse de sofrer tanto iríamos tirá-lo da escolinha. Graças a Deus ele tem com quem ficar: Minha sogra se prontificou a cuidar dele desde que voltei ao trabalho, minha mãe também fica com ele e muitas vezes meus horários são bem flexíveis, o que me permite passar um bom tempo com meu filho e acabou por nos deixar cada vez mais apegados um ao outro.
É claro que com isso a minha rotina é muito mais corrida, mas vale a pena porque estou tendo o privilégio de poder curtir cada fase do meu pequeno.
Na terça-feira o Miguel ainda chorou, mas, na quarta, pela primeira vez ele soltou a minha mão... e eu fiquei ali, sem saber o que fazer. Ele me olhou e perguntou, como havia perguntado muitas vezes em casa: "Você vai ficar 'mi' 'espeando', mamãe?" e eu respondi que sempre estaria ali quando ele saísse.
Então, ele disse "tchau" para mim e para o pai e foi viver aquele tantinho de tempo em que ele é "O Miguel novo", já que na salinha dele há um outro Miguel.
No momento em que eu vi que ele não estava mais sofrendo senti uma tonelada sendo retirada dos meus ombros.
Mas senti também uma imensa nostalgia, uma saudade enorme de quando ele era um "passarinho" e ficava aninhado no meu colo, ou de quando ele ficava horas dormindo do meu lado à tarde, sem mais nada pra fazer.
E percebi que a cada dia ele vai descobrir que o mundo é muito mais do que a nossa casa, do que os nossos passeios pelo bairro, ou do que o meu colo.
Que essa será apenas a primeira de uma série de etapas que vão nos deixar longe um do outro por algumas horas.
Que se meu filho quiser fazer intercâmbio e morar em outro país vou largar tudo e sair por aí mochilando...
Percebi também que por algumas horas eu tenho as minhas duas mãos novamente só para mim e que preciso reaprender a usá-las.
Existem mães que não tem opção de deixar os filhos com os avós e precisam colocá-los em escolas ou creches e existem aquelas que podem escolher.
Existem também necessidades diferentes, realidades diferentes e desejos diferentes.
Mas toda mãe sabe, no fundo do coração o que é melhor para si e para seu filho, porque, uma mãe equilibrada também faz com que seu filho seja mais feliz.
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