O sexo dos anjos

A primeira vez que ouvi o nome Ana Clara eu tinha 14 anos e decidi que se tivesse uma filha esse seria seu nome. Comecei a sonhar com a Ana Clara aos 18 anos. Quando digo sonhar, não falo de forma abstrata; eu realmente sonhava (enquanto dormia) com a minha filha, um bebê bem clarinho, com um nariz lindo e diferente do meu (eu adoro nariz de bebê). Ela não se parecia muito, então, deduzi que deveria parecer com o pai; como eu ainda não conhecia ninguém parecido com ela, também deduzi que ainda não havia conhecido o homem que seria o pai da minha filha. Acredito em vida após a morte e em reencarnação e, para mim, essa menina que me visitava em sonhos e que demonstrava me amar muito, seria minha filha, caso eu algum dia decidisse ser mãe. Durante 13 anos sonhei com ela. Ela me aparecia em momentos diferentes, no começo como um bebê, depois, como uma menina um pouco maior, de cerca de 2 anos. Dois meses antes de descobrir que estava grávida sonhei com ela, que estava em meu colo, colocava as mãozinhas em meu rosto e dizia: "Eu te amo mamãe". Então, quando vi o resultado do teste de gravidez dar positivo, tive certeza de que a Ana Clara estava vindo. Com cerca de três meses e meio fiz o primeiro ultrassom para tentar ver o sexo do bebê, na verdade, por questões de agenda dos médicos acabei fazendo duas ultrassonografias, com dois profissionais diferentes e o palpite dos dois foi o mesmo: Uma menina! Na primeira ultrassonografia chorei emocionada ao saber que aquele espírito que parecia me conhecer tão bem iria ser minha filha. Falamos para a família, algumas pessoas preferiam um menino, o que me deixava "fula" da vida; mas, começamos a ganhar as primeiras roupinhas, todas rosas, minha melhor amiga, uma mulher muito prendada, comprou lã e tecidos, todos lilás ou cor de rosa para fazer peças do enxoval. Minha vizinha, uma senhorinha que é um doce bordou toalhas com o nome Ana Clara. Eu falava com a minha filha, meu marido a chamava de princesa e assim fomos levando até quase o sétimo mês. Na última ultrassonografia morfológica, estávamos já curiosos para vermos nossa filha em 3D, quando veio a surpresa: o médico havia se enganado e eu estava esperando um menino. Na hora eu juro que achei que ele estava brincando, no entanto, não estava. Eu seria mãe de um menino! Quem me conhece sabe que sou muito, muito feminista; pra falar a verdade, eu nunca havia sonhado com a possibilidade de ter um menino. Pra falar ainda mais a verdade, eu não queria ter um menino! Quando perguntam pra gente se temos alguma preferência, a maioria de nós fala: Ah, quero que venha com saúde... É mentira. Todo mundo tem uma preferência; o Diego meu marido, ainda não sabia (eu já, claro), mas, ele também preferia uma menina. Pra mim, foi um choque imenso; eu não estava acostumada com a ideia de ter uma menina há quase sete meses; eu tinha certeza de que teria uma filha há 14 anos! Saí da sala de exame desnorteada; não conseguia falar e proibi o Diego de contar para qualquer pessoa até eu conseguir assimilar a informação e escolher um nome (nem nome o menino tinha!). Alguns dias antes de fazer a ultrassonografia que mostrou o erro no sexo do bebê o nome Miguel começou a rondar minha cabeça; assim, sem explicação nenhuma. Um casal de amigos nossos também estava "grávido" e eu cismei que a mãe havia me dito que, caso fosse menino, seria Miguel (na verdade seria Enzo). Mas, nem dei bola pra essa cisma com o nome, até descobrir que esperava um homenzinho. Além da tristeza que eu sentia, tinha muita culpa por estar triste; não queria de forma alguma que o bebê sentisse que eu não gostava dele, mas, não conseguia me sentir melhor. Cheguei até a ficar meio "fora do ar" e comecei a procurar na internet casos de mães que passaram por isso. Descobri que existiam muitas pessoas, mães e pais que se sentiam arrasados quando descobriam que o bebê não era do sexo desejado; vi até o depoimento de uma mãe que, quando descobriu que esperava uma menina e não um menino, pensou em se matar; outra falava que o marido, ao descobrir que não teria uma filha, queria se separar dela. Comecei a não me sentir assim TÃO anormal; mas, precisava me recompor e o primeiro passo era escolher um nome. Fizemos uma lista com opções (eu queria nomes compostos tipo, João Miguel, João Diego, etc, afinal, adoro uma novela mexicana), mas, tive que incluir na lista nomes mais "normais", entre eles Miguel. Minha irmã, sem me perguntar se podia, até fez uma enquete no facebook pedindo sugestões, pode? Surpreendentemente, o nome Miguel apareceu em 1º lugar! Mas eu ainda não estava convencida, então, de noite, pegamos a lista de nomes e lemos para a barriga. O combinado era o seguinte: os que o bebê chutasse iriam para a final, então, pediríamos para ele chutar de novo, senão, escolheríamos nós mesmos. O único nome que ele chutou quando ouviu foi Miguel. Depois disso, não tinha mais jeito. Meu anjo teria nome de anjo. Nome escolhido, o próximo passo foi divulgar para toda a família. Na ocasião, tive mais uma vez a certeza de que as pessoas (homens e mulheres) são extremamente machistas. Teve gente que fez mais festa quando eu contei que esperava o Miguel do que quando eu disse que estava grávida. Falei pro Di que se estivéssemos nas Arábias ele teria que me cobrir de ouro! rsrs. Confesso que essa euforia pelo filho "macho" me chateou; senti uma tristeza pela minha filha que não viria dessa vez e achei bem machista algumas posturas, mas, fazer o quê né? Durante a gravidez do Miguel e depois que ele nasceu, tive certeza de que o mundo é, ainda, muito machista. Mas, como diz uma de minhas melhores amigas, não teria mãe melhor para ter um menino do que eu, afinal, serei responsável por uma nova era masculina, já que vou educar meu filho para ser um homem e tanto, parecido com o pai, (que graças a Deus não é machista). Não troquei nenhuma das roupas que eu ganhei; guardei todas porque sei que a Ana clara ainda virá; amo essa menina que ainda não conheço pessoalmente, mas, hoje, sou loucamente apaixonada pelo meu menino. Ele é como eu achava que seria: sensível, alegre, charmoso, bem humorado. É dengoso e tem um olhar que vai arrebatar corações, porque já arrebata o meu. Ainda quero muito uma menina, tanto que, caso não tenha uma filha biológica, penso seriamente em adotar. No entanto aprendi muito com esse toquinho de gente que hoje é a minha vida; tenho certeza que muitas mães e pais passam ou vão passar pelo que eu passei. Sei que sempre há uma preferência e muitos casais, principalmente as mães, tem medo ou vergonha de admitirem. Então eu dou um conselho: não tenham. Acredito que quando uma criança está dentro de nós pode sentir o que sentimos, o que pensamos. Mentir não vai adiantar nada, pelo contrário. Depois do que eu chamo de "a troca dos bebês", tive uma conversa séria com o Miguel, ainda na minha barriga; prometi a ele que mesmo nunca tendo me imaginado mãe de um garoto, tentaria fazer o melhor e amá-lo como ele merecia. Pedi a ele que me desse uma forcinha. Parece que ele entendeu e hoje nos amamos loucamente!!

Ah, já avisei a galera: se tiver periguete na minha porta jogo cândida que é para lavar a alma da dita cuja.

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