A verdadeira face do amor
Essa semana estava na sala assistindo a um filme que no Brasil se chama "Histórias Cruzadas".
Peguei- o na metade, claro, mas já tinha ouvido falar dele e continuei assistindo.
A história se passa em uma cidadezinha do Mississipi, nos Estados Unidos, na década de 60 e retrata a história de uma jovem que volta para sua terra natal e quer ser escritora.
Ela faz parte de uma elite branca, para a qual muitas mulheres negras trabalham. Essas mulheres ajudam ou criam, em tempo integral os filhos de suas patroas, da alta sociedade.
As crianças, claro, possuem laços de amor com essas babás. A protagonista é uma delas. Deixada de lado pela mãe é cuidada e assistida por uma empregada negra que lhe dá atenção, carinho, amor.
A jovem, que se chama Skeeter resolve então escrever sobre as relações entre patroas e empregadas, o papel dessas mulheres em suas vidas e as maldades às quais muitas vezes elas são subjugadas em uma sociedade elitista e preconceituosa.
Para conseguir escrever seu livro a jovem precisa do depoimento de muitas mulheres negras que acabam fazendo parte da obra.
É claro que isso causa muitos conflitos entre as "senhoras" e as "negras", como são chamadas no filme.
Se você leu até aqui deve estar se perguntando porque eu estou fazendo a resenha de um filme. Calma, já vou explicar o motivo.
A cena final mostra a personagem da principal atriz negra sendo mandada embora depois de uma discussão com a amiga de sua patroa. Essa mulher tem dois filhos, um menino de colo e uma menina de quatro anos, aproximadamente. Nas imagens, quando a babá diz que vai embora a menina pequena começa a chorar e pede para que ela não vá. A babá, com lágrimas nos olhos tenta explicar que precisa ir, mas a garotinha está irredutível. Chora, desesperada. Quando, finalmente, a babá vai embora a criança corre até a janela com lágrimas nos olhos e começa a gritar seu nome, pedindo para que ela volte, o que não acontece.
Nesse momento percebi que Miguel, meu filho, estava olhando a cena atentamente. Ele vira-se para mim e para o meu marido que estava na sala também e fala: " Mamãe, a menina tá 'choando' 'puquê' a mamãe 'dea' foi 'emboa'. 'Ea' 'qué' que a mamãe volte".
O Diego explicou para ele que a moça que estava indo embora não era mãe da menininha, mas sim uma pessoa da qual ela gostava muito. Mas o Miguel respondeu com convicção: "Não Papito, 'ea' é a mamãe 'dea' sim".
Foi aí que eu percebi: Nós, tão acostumados com os esteriótipos e a lógica do mundo dos adultos achamos óbvio que ele percebesse as diferenças físicas entre as duas atrizes, a adulta e a mirim, uma vez que a garotinha era loira de olhos azuis.
Mas meu filho, em sua sabedoria muito maior do que a de qualquer um de nós só enxergava uma criança inconsolável porque a pessoa em quem ela confiava, a qual ela amava e que a amava também estava indo embora. Ele só via a lógica do amor. Para ele, uma tristeza daquele tamanho só podia ser justificada pela falta da mãe. Pela saudade de um amor muito grande.
Desde que o Miguel nasceu senti orgulho do meu filho muitas vezes: quando ele começou a falar (cedo, claro, porque é tagarela como eu), quando ele andou, quando aprende as coisas de forma rápida ou dá respostas inteligentes demais para sua idade. Mas nunca, nunca senti tanto orgulho dele como nesse momento.
Pude ver com seus olhos o que ele entende por amor e enxergar a pureza de seu coração. Pude entender a enorme responsabilidade que nós como pais temos em não permitir nunca, jamais, que a sociedade imponha sobre nossas crianças seus preconceitos, pré-julgamentos, esteriótipos, verdades absolutas.
Pude ver como nossa visão muitas vezes é turva, falha e não enxerga a única coisa que deveria importar: o amor que damos e recebemos, livre de julgamentos, de pressões, de limitações.
Mas graças a Deus, Miguel está aí para me lembrar sempre, de tudo isso. E eu estou aqui, para jamais deixá-lo esquecer de quem ele é.

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