Parto Humanizado, realidade ou ficção?

Miguel nasceu de cesária como a maioria dos bebês de mães que tem acesso a um bom plano de saúde no Brasil.

Essa é a realidade do nosso país e não adianta querer negar com palavras bonitas, expressões como "parto humanizado", "parto normal", "parto natural".

No Brasil isso é para poucas mulheres e poucos bebês.

Tive meu filho em Santos, em um hospital particular. Na primeira consulta com um ginecologista obstetra perguntei o que ele aconselhava e a resposta foi direta: como você já tem 30 anos, o melhor é a cesária. 

Na hora não pensei muito sobre o assunto, afinal, estava apenas de 3 meses e durante toda a minha vida pensei que se tivesse um filho o parto seria cesária.

O motivo é simples: sou a filha mais velha e tenho outras três irmãs. Minha mãe teve, portanto quatro filhas, todas de parto normal.

Os relatos que minha mãe fazia e ainda faz sobre as suas experiências na sala de parto parecem extraídas de filmes de terror.

Dores horríveis, mal atendimento por parte da equipe de enfermagem, o médico dando o "pontinho do marido" na hora de costurar o períneo.

Minha mãe ganhou 20 pontos quando eu nasci.
Minha irmã, dois anos mais nova teve que nascer a fórceps depois de mais de 20 horas de trabalho de parto.
Minha irmã, cinco anos mais nova do que eu estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço e quase foi asfixiada.
A única que nasceu com mais tranquilidade foi a mais nova.
Como sou oito anos mais velha do que ela lembro-me  bem da gestação e do pós-parto da minha mãe, que, pasmem, não foi atendida pelo SUS. Todas as suas filhas nasceram em hospital particular e o pagamento também foi feito dessa forma porque na época planos de saúde não eram tão comuns.

Trinta e um anos depois lá estava eu, grávida e com o aconselhamento para uma cesária  na hora pensei: Ótimo!

Mas ao longo da gravidez comecei a cogitar que  talvez o parto normal (sem dor) pudesse ser uma boa opção para mim, quer dizer, para nós.

É claro que durante a gestação várias pessoas perguntam para a futura mamãe o que ela quer: Parto normal ou cesária?

Quando eu respondia que faria cesária, a maioria das pessoas, quase sempre mulheres falavam: Não, tenta o normal é tão bom para  a  criança, para você...

Chamo essas pessoas, carinhosamente, de "Mensageiras do Apocalipse" e explico porque: quando nasce um bebê, ou, antes disso, quando ele está sendo gerado nasce também uma mãe e uma horda de palpiteiros (as) indesejados (as).

Deveria haver uma placa pendurada no pescoço da mãe com os dizeres: "Quem decide como meu filho (a) nasce sou eu e Deus e já está bom demais..."

Ninguém é mais ou menos mãe porque tem  o filho (a) através de cesária ou parto normal.

Mas, voltando à questão da escolha da forma como a criança virá ao mundo digo, por experiência própria, que pelo menos no Brasil estamos muito, muito distantes de um sistema público ou privado de saúde que possibilite à mãe o poder da escolha, sempre aconselhada claro por um médico.

Nós mulheres ficamos vulneráveis durante a gestação. Infelizmente isso é verdade, apesar de minhas negativas feministas.

Estamos gerando um novo ser a partir do nosso corpo e apesar de isso ser  natural  não é nada fácil.
Natural não quer dizer fácil.
Natural não quer dizer tranquilo.

A evolução da medicina nos propiciou a utilização de analgésicos e anestésicos para evitar as fortes dores do parto.

Propiciou também a utilização de antibióticos para combater infecções e a Febre Puerperal, chamada de "A peste dos Médicos".

Quando alguém defende com unhas e dentes o parto natural ou o parto domiciliar dizendo que essa é a melhor opção lembro-me de algumas histórias que minha avó me contava (e ainda conta) sobre os nascimentos em casa, há 50, 60 anos. Mais histórias de terror. Horas de orações das vizinhas que cercavam a casa em uma roda de preces para que a morte não levasse nem a mãe, nem o bebê.

Não sou contra o parto natural. Tampouco sou contra o parto normal ou a cesária.
Sou contra a mulher fazer uma opção ou ser levada a fazê-la por pressões sociais, familiares, conjugais ou médicas.

Enquanto eu me preparava para entrar no Centro Cirúrgico senti um pânico como jamais havia sentido. Não sei se todas as mulheres sentem medo no primeiro ou em todos os partos, só sei que eu senti e olha que me considero bem corajosa.

Não me sentia preparada e informada o suficiente para ter a certeza de que aquela tinha sido a melhor opção.
Durante o pré-natal troquei de obstetra por razões de má assistência e graças a Deus  a médica que trouxe o Miguel ao mundo era excelente e muito, muito experiente. Mesmo assim, por  começar a me tratar com ela apenas no sétimo mês ainda tinha muitas dúvidas.

O tempo e o próprio parto mostraram que no meu caso a cesária havia sido a melhor opção.
Miguel estava com o pé preso atrás de uma das minhas costelas e não tinha conseguido se virar totalmente, então dificilmente eu teria entrado em trabalho de parto e conseguido dar à luz da forma "normal".

Ele também era muito grande pra mim.
A cesária demorou mais do que o normal porque ele não saiu de primeira o que me deixou bastante assustada.

Durante todo o tempo minha médica tentava me acalmar e o Diego, meu marido, estava comigo o que ajudou muito na hora "H".

Pouco tempo depois comecei a pensar o que teria acontecido se eu estivesse em hospital público.
Meu filho nasceu "meio baleadinho" nas palavras do pediatra.
Fiquei pensando se tudo teria corrido bem se meu atendimento tivesse sido outro.

Como jornalista já acompanhei muitos casos de negligência com gestantes. Infelizmente muitos terminaram de forma trágica e até naqueles em que a mãe e o bebê saíram do hospital com saúde os relatos de maus-tratos e descaso por parte da equipe de enfermagem e da equipe médica são muitos.

Frases como: "Na hora de fazer não reclamou né?"
"Não adianta gritar, se gritar vai ficar sozinha aqui na sala e nenhum médico vai te atender", ou ainda " Deixa de frescura que todo mundo tem filho e ninguém reclama como você" são ditas até hoje, mesmo as secretarias de saúde negando, mesmo os médicos não admitindo, mesmo as enfermeiras fazendo de conta que isso não existe.

Na minha opinião o verdadeiro parto humanizado é aquele em que há respeito, acolhimento e atenção à mãe, ao pai e ao bebê.

Um ano depois do Miguel nascer assisti ao parto de uma grande amiga minha.
Ela ganhou sua filha em São Paulo, na Pró-Matre.

Desde o início queria parto normal, mas com anestesia.
Foi assim que teve a bebê, praticamente sem dor, com uma equipe dedicada ao lado que ficou com ela durante todo o tempo.

Mas, infelizmente minha amiga é uma exceção.

O parto sem dor ainda é uma realidade distante da grande maioria das mulheres, assim como o parto humanizado ou a cesária feita na hora certa para quem precisa.

Antes de  debater qual é o melhor jeito de uma criança vir ao mundo  é preciso que falemos sobre o tipo de tratamento e de atendimento que damos às nossas gestantes, às pós-parturientes e aos nossos recém-nascidos.

O preconceito e o pré-julgamento não devem fazer parte desse debate porque ambos apenas atrasam a busca por um atendimento de qualidade, seja no setor público ou privado.

Médicos e enfermeiras precisam descer de seus pedestais e entender que, o que para eles é algo rotineiro, para cada mãe que ali está é uma experiência única, difícil e inexplicável e que o papel desses profissionais não é reclamar do choro ou dos gritos, do medo ou da ansiedade e sim atender de forma humana e cuidadosa, seja uma cesária, um parto normal ou natural.

A sociedade também deve entender que não se cria regras culturais, sociais ou de conduta em escolhas pessoais e as mulheres precisam aprender  a respeitar seu corpo e seus desejos, fazer valer a sua vontade, porque, por mais que todo mundo fale, palpite ou argumente, no final das contas, somos nós que vamos parir. De um jeito ou de outro.




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